Muito interessante isso dos caminhos que a vida vai desenhando. Cá estou eu, voltando às origens da minha família, totalmente imersa numa cultura que formou meu pai, meus tios, meus avós, sem jamais ter me identificado, desejado ou me interessado por resgatar essa história familiar. Pelo contrário, meu pai se naturalizou brasileiro (o que me impediu de solicitar cidadania) e, embora volta e meia concluíssem que, por conta dessa descendência tão próxima, eu falava alemão ou vinha pra cá com frequência, nunca houve proximidade com a cultura alemã e meu pai chegava a dizer que ele não era alemão coisa nenhuma, e sim brasileiro (o que é a mais pura verdade!). O desinteresse era tanto que quando Marco ganhou a bolsa pra vir fazer o mestrado aqui, eu logo saí com a solução: “ótimo, eu vou estudar na França e moramos lá, que é bem mais legal!”. Não sei bem de onde veio essa imagem de que a França é mais legal e que morar na Alemanha, que eu nem conhecia, seria desinteressante. Mas o engraçado é como a coisa mudou de figura sem que eu sequer me desse conta: não só eu estou super satisfeita de morar aqui, como estou estudando alemão intensivamente, tendo deixado o francês, teoricamente mais importante, em segundo plano. Estou tão “acomodada” aqui que a idéia de ter que viajar pra outro país (mesmo que a distância seja de 1h30!) pra ter uma vida profissional e acadêmica, me é desanimadora! Foi curiosíssimo ir pra França na última semana: rolou um novo choque cultural, achei tudo diferente e estranho. É como se agora eu pertencesse à Alemanha, onde sou menos estrangeira que na França! Dei-me conta, outro dia, de um bom indício da “redução do meu nível de estrangeiridade” : quando chegamos aqui tínhamos excelentes desculpas para não comprar o ticket do bonde (que se deve comprar e validar na máquina, mesmo sendo raríssimas as fiscalizações e não tão cara a multa caso não se tenha feito o procedimento – 40 euros): entendíamos que por sermos estrangeiros não tínhamos obrigação de saber como funcionava o negócio; depois acreditávamos que podíamos sempre andar com o bilhete mais barato e justificar que não sabíamos da diferença, depois fingíamos que já íamos saltar ou que estávamos comprando o tíquete durante toda a viagem! Hoje não tem questão: temos sempre a passagem regular, é como funciona, simples assim! E que esquisito olhar pra tão pouco atrás e me ver querendo dar um jeitinho brasileiro, achando correto e possível não me enquadrar no procedimento! E que aflição o “caos” da França, onde nem sempre se espera o sinal fechar para se atravessar, ou nem sempre a ciclovia é local só para bicicletas!!

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