Queridos,
Ando querendo escrever, pois o último mail já foi há um
tempo e mandar notícias é uma forma de administrar as saudades. Muitos de vocês
têm também me cobrado as mensagens “enormes e divertidas”. Mas acontece que
depois de um tempo aqui, as coisas deixam de ser novidade e o olhar de
estranhamento, em que cada detalhe cotidiano vale ser narrado, vai se habituando. Se por um lado fica tudo mais sem-graça, por
outro, é incrível isso da gente se adaptar a situações as mais variadas e poder
construir, desconstruir e reconstruir paradigmas ao longo da vida. Faz parte do
processo incorporar os hábitos de uma outra cultura, que no início nos eram tão
estranhos, e aí passar a questionar e estranhar padrões da nossa própria
cultura, antes tão familiar. O negócio vai ser administrar pra sempre essa
marca, que eu suponho que fique, de uma certa desterritorialização. Deve ser
análoga a um processo de análise, que é algo que abre os horizontes de uma
forma riquíssima, mas que, como me queixou uma amiga de forma muito pertinente
uma vez, é irreversível e talvez fosse mais simples viver num campo de visão
mais estreito.
Enfim, mó blá-blá-blá pra encher lingüiça, já que não tenho
muito pra contar e estou com a capacidade narrativa completamente congelada
neste frio polar horroroso! E eu que vinha comemorando um inverno especialmente
ameno, em que não tinha nem temperatura negativa nem neve, fui surpreendida com
quase 3 semanas de sensação térmica chegando a -20 graus. Bom, eu paniquei,
reclamei à beça, fiz drama dizendo que isso não era vida, que seria impossível
tocar a minha rotina simples de trocar de trem, andar 10 minutinhos pra pegar
um bonde ou ir pro curso de francês. Mas a verdade é que, apesar de ser bem
desagradável, não faz tanta diferença assim em relação a uns -5 graus, que
suponho que seja uma temperatura normal de inverno europeu. Hoje está -1,
finalmente nevando bem, e eu estou surpresa com minha sensação de que está
super agradável este “calorzinho”!!
Tô aqui fugindo das notícias mais pragmáticas porque elas
são chatíssimas. Eu estou detestando e mestrado e me pergunto repetidamente o
que estou fazendo lá. Fui parar num departamento pós-crise, que está ainda se
recompondo de um racha onde saíram os professores mais interessantes, parece. A
diretora atual é uma vaca arrogante que acredita que psicanálise é ciência
exata e que precisamos usar instrumentos tais como testes psicológicos pra
“verificar” as nossas hipóteses! Algumas aulas me lembram o primeiro período da
faculdade. Mas, foi a possibilidade que rolou de voltar a estudar de forma mais
sistemática, acho que é fundamental me
manter ocupada, é uma carta na manga pra volta, tem o bônus da língua e,
principalmente, escrever a dissertação é algo que, embora me seja muito
sofrido, faz todo o sentido pra mim! Pelo menos tive a sorte de pegar uma
orientadora legal e poder pesquisar exatamente o que eu queria. E também é um
mestrado-relâmpago este, que termina em menos de 1 ano, e eu já estou na reta
final. E depois, é só alegria. Verão, visitas mais que esperadas, viagens mil, estágio em La Borde!!
Então é aproveitar antes que acabe essas “férias prolongadas”, que é o que me
parece essa experiência aqui!
Bom, é isso. Quero notícias quentinhas de vocês também.
Beijo enorme
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