Você
percebe que está europeia quando vê um potinho com melancia cortada por 3 euros
e compra sem pestanejar, se achando a maior sortuda do mundo!
domingo, 5 de agosto de 2012
quarta-feira, 11 de julho de 2012
O “monstro” e a “justiceira”
(originalmente publicado no blog Excluídos Urbanos - http://exurbanos.blogspot.com.br/)
Já faz tempo, ainda mais pra nossa
memória curta e ocupada com um excesso de informações tão avassalador que é
inassimilável. Mas a história de um menino inteiramente desprovido de tudo,
massacrado por uma “repórter” num desses programas sensacionalistas baratos não
me passou batida, como também não passou a tanta gente que comentou na época,
nas redes sociais que tornaram visível esse rapaz invisível. (Só não escrevi
antes porque toda a minha capacidade de escrita estava sendo ocupada pela minha
dissertação de mestrado).
Pra quem não acompanhou na época,
trata-se de uma suposta jornalista que se arvora a justiceira, condenando,
ironizando e humilhando um rapaz detido por roubo e suspeito de estupro (http://www.youtube.com/watch?v=F6VCbJHtzdc). A cena
dantesca traz vários questionamentos: sobre esse tipo de programa, que fere às
finalidades educativas e culturais da concessão pública televisiva; sobre o
papel da mídia na nossa cultura da desigualdade e da criminalização da pobreza;
sobre a questão ética da suposta repórter; ou a interrogação quanto ao acesso
que esses programas têm às delegacias e aos detidos. Mas o que é interessante é
que esse rapaz, ao ser cruelmente desprezado pela entrevistadora,
paradoxalmente sai de sua invisibilidade e vira tema de discussão nas redes
sociais. O garoto, negro, algemado, desdentado e com um hematoma no rosto, vira
centro das atenções, provavelmente pela primeira vez na vida, sob luz, câmera e
um microfone perverso, a partir da ira da loira defensora dos bons costumes e
do bom português.
Não são nada grandes as chances de
cruzar a fronteira da exclusão. Paulo Sérgio, que nunca teve pão, curiosamente
conseguiu deixar o anonimato, virando circo, a partir de seu crime. E foi
assim, por acaso, que entrou no enquadre da Justiça, da qual tanto os
miseráveis quanto os abastados são exceção. Ele agora tem a seu favor um
processo de danos morais, além da possibilidade de responder ao seu delito dentro
dos trâmites legais, em vez de ser mais um invisível esquecido no sistema
prisional. Paulo Sérgio, que é analfabeto, tem seis
irmãos e vive nas ruas desde criança, era um fora-da-lei, pois sem direitos e sem deveres.
Era um marginal não só no sentido de quem comete um crime, mas de quem vive à
margem, fora da Lei, porque fora do pacto social, daquilo que é compartilhado.
O excluído é invisível. Olha-se
pro lado oposto, evitando-se a pobreza, pra não se entrar em contato com algo
do horror, do estranho, do outro, que, defensivamente, deve ser negado. O estranho, o bárbaro, vira inimigo, que deve e merece ser açoitado em
horário nobre. O marginal é a causa da tão
temida violência que precisa ser fortemente combatida, evitando-se a invasão do
de fora da margem com muros, grades, controles de segurança!
Pois
infelizmente parece que é justamente só através da violência que esses
invisíveis ganham algum olhar, nem que seja este do temor e do horror. Ser
marginal, agora como aquele que rouba ou fere os bons costumes, é uma solução
identitária para quem nunca foi visto, é uma resposta à falta de pertencimento,
ou justamente um reflexo deste lugar, ou não-lugar social, à margem, que tantos
meninos como Paulo Sérgio ocupam.
A possibilidade de reconhecimento
é condição fundamental para uma existência que reduza a miséria, não só a
social, mas a miséria da alma, que é algo comum a todos nós, que nascemos
desamparados. Tomara que Paulo Sérgio possa se manter reconhecido e, a partir
disso, possa começar a contar sua própria historia, deixando de ser para nós
apenas um representante de tantos excluídos.
Quando olho sou visto, logo
existo.
Agora tenho como olhar e ver.
Agora olho com criatividade (…).
(Winnicott, 1994, p. 157)
referências:
Bastos, L.A. “ Caminho para as Índias: trauma, compulsão e repetição.” XXII Congresso Brasileiro de Psicanálise. 29
avril - 2 mai 2009. Rio de Janeiro, 2009.
__________. “Exclusão social: aspectos
traumáticos da violência contemporânea.” Revista
Brasileira de Psicanálise, 2006: 57-60.
REIS, E. “Doces e amargos bárbaros.” Polêmica, abril 2012, Disponível em: http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/polemica/article/view/2985/2132.
Viñar, M. “Qué puede decir un psicoanalista sobre exclusión social?” Rio, que cidade é essa? . Rio de
Janeiro: SBPRJ, 26 octobre 2007.
Winnicott, D.W. A comunicação entre o bebê e a mãe e entre
a mãe e o bebê: convergências e divergências”. Os bebês e suas mães. São Paulo:
Martins Fontes, 1994.
terça-feira, 12 de junho de 2012
mestra!
missão cumprida,
há 4 horas atrás eu, recém mestra, estava quicando, “querendo dançar
Macarena” (Duarte, 2012!) na escadaria da universidade! Foi uma aflição não ter
pra quem correr pro abraço, pois meus numerosíssimos amigos (duas!) de
Strasbourg não estavam lá e a defesa infelizmente é fechada. Então, depois de
ter que dar conta sozinha da sensação de não caber em mim mesma, a coisa
maníaca do quente da hora foi passando ao longo das minhas demoradas conexões
de trem na viagem de 3 horas de volta pra casa e eu já não sei se sou capaz de
contar de maneira fiel o que rolou naquela salinha, entre euzinha, minha
orientadora e o professor que aqui eles chamam de júri. Caramba, foi muito
bacana!! Apesar de uma cultura, que talvez seja mais mito que qualquer coisa,
dos professores pegarem pesado na defesa e fazerem todo um jogo pra testar sua
capacidade de se defender de fato, eles foram só elogios! A crítica de um foi
que eu atrapalhei o trabalho dele de ter que criticar, pois não havia muito o
que dizer quanto a isso! No momento estou muito metida pra contar de forma mais
humilde que rolou papo de que o meu trabalho era de nível de um doutorado, que
é preciso continuar, que o texto está tão bom e fluido que os dois leram de uma
enfiada só, que é um trabalho muito pertinente, inédito e ao mesmo tempo
autoral, que precisa ser compartilhado, que ensina muita coisa pros franceses e
que até o francês está bom! Enfim, tô mega feliz, rindo daquele início,
registrado aqui, em que me sentia absolutamente incapaz de me expressar, e
minha crença, ao longo de grande parte do processo, de que seria impossível
concluir esse mestrado, ainda mais em um ano. Nossa, não tem muito tempo que
quando me pegava às voltas com a descoberta de uma nova exigência nessa loucura
de ter que desvendar praticamente sozinha o estranho funcionamento de um mestrado em
outro país e em outra língua, eu pensava em desistir. Muitas
vezes me perguntei sobre o sentido de investir em um deslocamento diário tão longo (cruzava a fronteira 2 vezes por dia e às vezes passava 6 horas viajando!), de dividir minha vida que acabava não se fixando nem na Alemanha
nem na França, do esforço de dar conta de obrigações quase escolares numa
lógica acadêmica à qual eu tenho tantas críticas, da dificuldade de lidar com
duas línguas estrangeiras ao mesmo tempo. Na verdade, eu, de fato, não
considerava a hipótese de escrever a dissertação em francês. Lembro que acreditava profundamente que precisaria escrever
em português e mandar traduzir. E não é que não só a bichinha nasceu em francês
mas ficou bonita?! E agora, ironicamente, parece que me cabe fazer um
doutorado! E eu achava que não dava pra coisa acadêmica... Confesso que parir
essa dissertação, apesar de todo o sofrimento, foi tão bacana pra mim que eu já
vinha pensando nisso. Mas depois dessa “indicação obrigatória”, em que os
professores disseram que eu preciso compartilhar meu trabalho, e de toda a
afirmação na dissertação da dimensão da narrativa, da troca, da importância de
simbolizar e de elaborar, acho que preciso pensar seriamente nesse projeto.
Mas, e a minha tão sonhada volta pela Europa?! Bom, pelo visto em vez de férias
e de pesquisa de informações turísticas, eu vou é me ocupar de pesquisar bolsa
e de como começar um doutorado na França e terminar no Brasil. Se alguém tiver
uma dica, é bem-vinda... E feliz dia dos namorados pra você também!
sexta-feira, 23 de março de 2012
aniversário (1 primavera)
Exausta depois de fazer 3 faxinas e uma feijoada, mas hoje
não posso deixar de registrar que faz um ano que cheguei nesta terra. E não
digo, como sempre se diz, que o tempo voou. Minha impressão predominante é o
contrário. Afinal há um ano atrás eu era outra pessoa: tinha uma vida, uma
cabeça, um status social, um lugar no mundo e um corpo completamente
diferentes! Acho que talvez só na primeira infância eu tenha vivido e aprendido
tantas coisas em tão pouco tempo. Como já comentei em outro post, neste ano de
todas essas mudanças, aprendi a administrar uma casa, a viver longe de quase
tudo o que me dá sentido (e que não por estar longe deixa de dar, ainda bem!),
a ser casada, a me comunicar em duas línguas novas, a não ser ninguém neste mundão,
a cozinhar, a achar natural cruzar a fronteira de outro país quase todo dia, a
fazer faxina e a ser faxineira... É
coisa demais pra passar rápido! E é muita coisa pra um ano também. Comemoro
este ano, mais serena e me sentindo menos desterritorializada, com a chegada da
primavera, que como tudo aqui é pontualíssima. Impressionante como exatamente
no dia 21 ela chegou, com um dia lindo e um calorzinho delicioso, já trazendo
flores até pro sofrido gramado da universidade, onde uma multidão de estudantes
curtiam o sol e espetavam as flores no cabelo, celebrando a vida ao ar livre! Neste
clima de “voltar à vida” após a “hibernação” do inverno e de mudar de estação,
encerro este ciclo como a primavera: bem mais alegre e com mais vontade de
curtir o sol, de ver gente, de fazer coisas; animada com os planos pro próximo
ano, que imagino que ao contrário deste, vai passar muitíssimo rápido. E aí
será hora de voltar pro meu Brasil, onde é sempre verão!
quinta-feira, 22 de março de 2012
sobre povos, banheiros e línguas
França e Alemanha fazem fronteira, como todo mundo sabe. Nem todo mundo sabe que a Alsácia já pertenceu à Alemanha mais de uma vez e dizem que é um pedaço da França completamente diferente por conta da forte influência da cultura alemã. Isso é notável em vários elementos cotidianos: na paisagem, com casas em arquitetura enxaimel; na culinária, onde só muda o nome, mas o prato típico é o chucrute; na abundância de Brasseries – algo entre bar e restaurante, onde se toma cerveja e não vinho, exatamente como os Biergartens alemães; nos nomes das ruas, que ou são em alemão ou ganharam versões francesas por associação com o nome alemão original (os nomes das ruas em Strasbourg dão um post à parte, pois há várias histórias engraçadas, como a da rua do veado, que ganhou esse nome porque lá morava na Idade Média a família Calba, o que fez que, ao mudar pro francês, o nome fosse atribuído a Kalb, que significa veado em alemão). Mas, apesar das semelhanças, eu que troquei minhas lentes há pouco e ando com os olhos bem abertos, com sede de tudo observar, acho tão diferente que ainda me é uma experiência antropológica esta troca diária de país. A começar pelo povo. Ao contrário do estereótipo, os alemães são incrivelmente mais sorridentes, leves e alegres que os franceses. É interessantíssimo: pego o trem de manhã cedo com um bando de gente conversando animadamente, se chamando, e falando tão alto que muitas vezes fica difícil estudar. Ao chegar à França, apesar de já não ser tão cedo assim, encontro pessoas cabisbaixas e olhando pro chão no bonde, cada uma com seu fone de ouvido, não há troca. Por outro lado, a “interação” rola muito mais na hora de abrir uma porta, mandar um “pardon”ou “excusez-moi”. Apesar do mau-humor típico, os franceses seguram a porta pra você o tempo que for preciso se você está dentro do campo de visão de quem está abrindo uma porta. Super irritados, mas não deixam de fazê-lo! E é um tal de “merci” e “je vous en prie” que não acaba mais! Elegantíssimos os franceses. Os alemães não, são quase brutos (inclusive no jeito de se vestir, de andar, de falar), diretos, sem rodeios ou palavrinhas educadas. Mas, em geral, no fundo são mais solícitos e amigáveis que os franceses e não perdem jamais uma tentativa de piada, por mais que não haja aonde enfiar a graça! Por outro lado, também são capazes de deixar uma porta bater na sua cara e jamais cederiam o lugar pra um velhinho ou uma mãe com bebê. Bom, pra isso, bastaria elas pedirem, aí não faltaria ajuda! Se a cultura é da independência, por outro lado, o senso do coletivo é fortíssimo. Percebe-se isso em vários aspectos da organização cotidiana, vide a separação de lixo exemplar (são 7 classes de lixo e todos respeitam isso!). Não há lixo no chão, embora praticamente não haja garis. Mas esse coletivo tem o preço do denuncismo. Dizem que o alemão adora reclamar do outro que fez algo fora da norma comum. Isso fica visível no trânsito, que é impecável, mas rola uma buzinada séria não pra alertar, mas pra reclamar de alguma barberagem! Já na França é “permitido” atravessar em qualquer lugar, correndo-se o risco de ser atropelado por uma bicicleta, esta prioridade máxima. Se rolar algum incidente, todos pedem desculpa, não se aponta o culpado. É cada um no seu quadrado. Falando em quadrado, e os banheiros? Tem semelhanças: em ambos os países costumam ser surpreendentemente limpos (tem sempre papel higiênico – inclusive na faculdade de psicologia! – e a tal escovinha pra você próprio limpar qualquer marca que o seu número 2 possa ter deixado!!), mas na França tem o faxineiro pra limpar e na Alemanha, quando existe algum funcionário, ele fica sentadinho na porta e pega muito mal não dar uma moeda depois de feita a necessidade. Outra coisa interessante é que na França os banheiros mistos não são incomuns. O Laerte é que ia gostar! Aliás, falando em merda, na Alemanha a marca do nazismo ainda é muito presente. Há de se silenciar sobre muitas coisas. Não se ouve, por exemplo, queixas ou manifestações quanto à política de imigração. É claro que rola preconceito, mas não se fala nisso. Mesmo quando o mal-estar é legítimo, como com as gangues de russos numa cidade próxima da nossa roça, a queixa é um sussurro, cheio de rodeios e pedidos de desculpa. Neste ponto os alemães são mais franceses: discretos e elegantes. Já os franceses são alemães em relação aos imigrantes, pois discutem abertamente a política de imigração, cuja dureza é plataforma política explícita de alguns dos candidatos à presidência que vai ser decidida agora. O debate sobre o preconceito e a desigualdade com os imigrantes e seus descendentes é até tema de aula do mestrado. Na Alemanha, só se fala disso entre quatro paredes. Por falar em falar, é interessante que embora o francês seja muito mais familiar e fácil que o alemão, tenho uma dificuldade muito maior de me sentir à vontade falando-o. Acho que é porque a formalidade da cultura francesa atinge também a língua, e tudo o que se diz, há de se dizer com muita propriedade e com as palavras certas, tendo que se ser capaz de explicar e embasar muito bem o que se diz. Já o alemão, não tenho nenhuma cerimônia de falar errado e limitadamente! Falo de um jeito capenga mesmo, complementando com o inglês quando preciso e ninguém me olha de cara feia! Não sinto na pele o tão falado preconceito, do qual tantos se queixam. Bom, eu também não sou parâmetro, com essa cara de européia que podia estar ilegal aqui há anos que ninguém ia desconfiar. Bem verdade que volta e meia tem um controle tenso da polícia no trem que cruza a fronteira. Sempre com homens árabes, sempre. Mas, fora isso, não vejo manifestações xenofóbicas. Esta é uma coisa interessante e comum tanto na Alemanha quanto na França: é uma multiculturalidade enorme, são muitos os estrangeiros de todas as origens, o povo está acostumado a lidar com gente de fora. Talvez isso faça com que eu me sinta extremamente à vontade nos dois países, que hoje já me são tão caros.
quinta-feira, 15 de março de 2012
oftalmologista
dissertação, artigo e trabalhos pra escrever. Mas bom
mesmo é escrever no blog.
Nosso plano de saúde vence em 15 dias, então hoje fui ao
médico pela primeira vez aqui nesta terra esquisita. Oftalmologista. Virei uma
pessoa dependente que precisa de marido até pra marcar um raio de médico.
Acontece que o marido marcou pra um horário ruim. Desafiei meu alemão precário
e bem liguei pro consultório, pedindo pra ir hoje: “Augenartzpraxis, klinisssshhh
rarsh errish larchhh Doktor rashhhhhhrrrressssrrrossssssssssshhhhhhhh, Guten
Tag” – a secretária proferiu quase 5 minutos de Rs apenas ao atender o telefone
e identificar que se tratava de uma clínica oftalmológica. Logo mandei um “Sprechen
Sie Englisch?” Não, ela disse que o Englisch dela era “schlecht”. Então disse
que o meu alemão também era e milagrosamente consegui explicar pra ela que
tinha consulta pra amanhã mas que gostaria de ir hoje. Super gentil, ela me
disse que eu poderia ir e mais um monte de outras coisas que não entendi!
Desliguei explicando que não tinha entendido nada além da parte de que eu podia
ir, então que estava chegando lá. No caminho, um egípcio, pra quem pedi
informação resolveu me levar lá. Estava tão decidido a ir até o médico comigo
que até me pediu pra esperar um pouco pra ele ir ao banco. Argumentei que já
estávamos na rua certa, que ele já tinha sido muito gentil e que agora,
procurar o número era fácil, mas ele insistiu que voltava logo. Fiquei meio
desconfiada, mas obedeci. Chegando à porta da clínica, tive que dispensar o
simpático, que parecia querer subir comigo e participar da consulta. Custei a
desvendar qual das 58 placas na entrada era referente à clínica que eu
procurava para identificar o andar (os endereços aqui nunca incluem o
apartamento ou a sala. É preciso ver pelos sobrenomes, escritos no térreo).
Acontece que o sobrenome da médica que eu procurava constava lá como homeopata
e não como oftalmologista. Chegando, toquei a campanhia e esperei longamente.
Toquei de novo e nada. Até que chegaram duas senhoras que imediatamente
empurraram a porta e entraram. Ri, dizendo que não sabia que era só entrar, mas
ninguém mais riu. A secretária estava altamente enrolada, digitando ferozmente
algo no computador e xingando cada telefonema que tocava fazendo sons
diferentes na recepção (um deles era uma musiquinha irritante). Até que veio
outra secretária, simpática, que felizmente falava um pouco de inglês. Logo
quis ficar com meus óculos e tive que explicar que não era possível, pois sem
eles não conseguiria chegar nem à cadeira da sala de espera. Perguntou de onde
eu era, sorrindo quando respondi, e logo em seguida perguntando também se eu ia
pagar (!) Mostrei-lhe o papel do plano de saúde, que ela olhou estranhamente,
como se não conhecesse. Perguntei se não aceitava tal plano e ela foi incisiva:
“claro, natürlich”; eu hein! Em seguida me chamou na sala de espera com uma
pronúncia que não poderia identificar que se tratasse do meu sobrenome (aqui
não existe chamar ninguém pelo primeiro nome). E olha que meu sobrenome é
alemão! Falou mais alto e mudou a pronúncia, aí sim me identifiquei e ela riu. Voltei
pro balcão de recepção e o telefone continuava agitado. A secretária gargalhava
com a outra, dizendo à pessoa que tinha ligado que ela podia ir ao salão, mas
que se fosse lavar o cabelo, não podia molhar os olhos. “Não, maquiagem deve
evitar na área dos olhos”, “sim, pode vir a pé para o médico, não tem problema
caminhar” e por fim: “então faz o seguinte, senhora: fica com o dia livre
amanhã, vai pro seu salão, aproveita seu fim de semana e vem fazer a cirurgia só
na segunda”. A outra chorava de rir, fazendo gestos de como ela lavaria o
cabelo sem molhar os olhos e como se maquiaria. A própria secretária foi fazer
meu exame de vista. Dizem que aqui na Alemanha é assim – o médico só chega no
fim pra carimbar e assinar o trabalho dos enfermeiros. Em 1 minuto a maquininha
disse, sem eu precisar ficar cantando letras e números cada vez menores, meu
grau. Acontece que surgiu um número abaixo do da minha lente atual, com a qual
enxergo cada vez pior. Expliquei-lhe que, apesar de eu estar velha pra essas
coisas, minha pele e minha vista funcionam como as de uma adolescente e que eu
tinha certeza de que meu grau tinha aumentado em relação ao meu último exame
embora o grau que ela tivesse encontrado fosse abaixo do que uso atualmente. Ela
estranhou, mas disse que ia conversar com a médica. Aí perguntou pra outra
secretária se a médica falava inglês e se mostrou preocupada de ouvir que não.
Achei então que ela explicaria previamente a situação, mas eis que depois de
mais uma longa espera, quando a tal médica me chama, não sabia do que se tratava o meu "caso", além de não
falar nem inglês, nem francês e nem um alemão claro, pois ela também é
estrangeira e tem um alemão carregado na pronúncia! (aqui grande parte dos
médicos é estrangeira, pois curiosamente não é um bom salário e os alemães acabam
raramente fazendo medicina). Chuto que ela era romena, só sei que os milhares
de Rs do alemão eram ditos por ela com a língua no céu da boca, em vez do R
forte, como os nossos 2 Rs. Bom, acho até que fui bem ao explicar novamente
toda novela da minha suspeita de que meu
grau havia aumentado e de que tudo o que eu precisava era de uma receita
atualizada para comprar lentes. Difícil foi entender o que ela disse: não sei
se ela explicou que é normal ainda na minha idade ter aumento de grau ou se era
que a diminuição do grau poderia gerar desconforto na visão também. Só sei que
foi hilário ficar chorando ao fazer o esforço de acompanhar com os olhos uma luzinha
chata em vez de olhar em direção à orelha da médica, como era a orientação! Ler as letras e os números foi fácil, difícil
foi entender que, neste país das regras, ela não podia me dar uma receita pra
lentes e sim pra óculos. Quem faz a validação da receita pra lentes é a ótica e
bastava, portanto, eu ir até a ótica mais próxima!
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
meu querido diário
esta é uma anotação de umas semanas atrás, que fiquei sem-graça de expor aqui. Aí aconteceu o que sempre acontece depois dos meus e-mails: com as respostas estimulantes eu perco a vergonha e venho aqui me exibir pro mundo. Bom, voilà:
Sempre fui boa em dar sentido à vida. Lembro, eu ainda
pequena, da minha mãe dizendo que eu era íntegra. Memória pelo menos
parcialmente fantasiada, talvez, pois a resposta da qual lembro não é o que me parece definir integridade exatamente, mas mais essa minha
característica: “É você entrar nas coisas por
inteiro, se engajar”. Bom, pode ser isso mesmo, pois integridade não deixa de
sê-lo e deve vir daí mesmo, de inteiro. Pois desde que meu senso auto-reflexivo
se entende por gente, me sinto sortuda por uma boa cota de pulsão de vida que
constitui minha natureza. De fato, costumo gostar, me envolver e fazer bem o
que quer que eu faça. Faço laços facilmente vida afora. E eles me preenchem
enormemente: família, trabalho, amigos, amor... Paradoxalmente, sinto-me,
tantas vezes, também muito vazia. E se tenho o lado aberto, alegre e receptiva
ao laço com o outro, sou ao mesmo tempo muito fechada, muito acomodada em
mim-mesma.
Essa experiência de viver fora naturalmente ressalta essas
características. É incrível como os dois lados da moeda me são intensos aqui: o
enorme sentido de viver essa experiência riquíssima e o total vazio de estar
aqui, tão longe de tudo que me dá sentido. São inúmeros os pontos favoráveis ao
que viver aqui tem de enormemente construtivo: conhecer outras culturas,
experimentar uma vida completamente diferente, estreitar profundamente meus
laços com o Marco, aprender e curtir cuidar de uma casa (o que se desdobrou em
cuidar também de outras), poder viajar muito pra vários países, aprender outras
duas línguas, estudar, ter tempo livre, viver um outro ritmo. Mas estar longe
de todos e do meu lugar social é também muitíssimo vazio. Aqui não sou ninguém,
ninguém me conhece, não trabalho em nada relevante, não construí uma história,
não tenho uma trajetória. E poderia fazer isso tudo, não facilmente, é claro,
mas não tenho vontade. Estou absolutamente acomodada, recolhida, de férias.
Dei-me conta do quanto não busco construir aqui as coisas que me dão sentido,
do quanto vivo numa certa provisoriedade. É exatamente este o meu sentimento –
de provisoriedade. E, se ao mesmo tempo, saber que isso é momentâneo me faz
suportar estar tão distante de tudo que me constitui, é também o que me impede
de buscar estar melhor.
Esses dias caiu esta importante ficha e tive vontade de não
estar tão acomodada neste tempo até então meramente intervalar. A primeira
reação foi começar uma dieta, visto que esta perspectiva de estar de férias até
de me cuidar me fez engordar muito além dos limites. A idéia de investir mais
no mestrado e passar a dar mais sentido à minha pesquisa, à possibilidade de
estudar , também foi animadora inicialmente. Acontece que a empolgação não
durou nada: o mestrado me é realmente algo quase sem sentido, não fosse a
escrita da dissertação. Tá, não é pouca coisa fazer uma pesquisa que tenho
vontade de fazer há tanto tempo e que tanto tem a ver com o meu trabalho, pro
qual voltarei em breve com essa bagagem. Mas as aulas, a viagem de 5 horas
quase que diariamente, e agora ter que encarar o frio polar pra assistir às
disciplinas que me lembram o primeiro
período de psicologia é realmente algo que têm muito mais a função de me manter
ocupada e sã do que me acrescentar algo, além do aprendizado do francês. Tive o
azar enorme de encontrar um departamento em frangalhos, após um racha em que
vários professores saíram e outros estão desmotivados e a organização está
caótica, além de uma diretora narcisista ao extremo e que acredita que
psicanálise é uma ciência dura!
Bom, resta-me investir em outra coisa que me é tão cara:
laço social. Mas a verdade é que, pra além de toda a dificuldade de me
aventurar nessa empreitada de fazer amigos na Alemanha, fica difícil constituir
um lugar estando dividida entre dois países. Além disso, fizemos a escolha,
super acertada, ao meu ver, de morar muito isolados, tendo a grande vantagem de
ter uma casinha pra lá de especial. Sair não é só difícil pela distância da
nossa casa da cidade e das opções de lazer, mas também pela falta de vontade de
sair de uma casinha tão linda e gostosa. Então nos acomodamos nós dois, o que
também é uma delícia, com nossas sessões de cinema de fim de semana e uma
rotina de aulas, faxina, mercado etc. É bem verdade que tem as visitas, os
projetos de viagem e tanta coisa ainda por vir.
É, e eu aqui reclamando da vida vazia... Acho que é isso que
me mantém bem, que na verdade o buraco de dentro é cercado de tanta coisa boa
que ele só se faz notar de vez em quando!
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