sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

rápidas


-A vizinha power-fofa tocou aqui agora pra dizer que tinha um trabalho pra mim. Ela tem uma amiga que quer “lições” em psicanálise. Custei a entender: perguntava o que ela queria exatamente e ela disse que a moça mencionou que gostaria de vir pra conversar. Perguntei se ela buscava um tratamento, uma análise. Ela disse imediatamente: “não, imagina, ela é muito saudável – é casada, o marido tem dinheiro!” Bom, expliquei que seria importante conversar com a moça pra entender melhor, mas que não seria possível, pois eu não tenho autorização pra clinicar aqui, não tenho consultório e, principalmente, tem o impedimento da língua! Ela disse que mencionou isso tudo pra amiga e a mesma disse que não tinha problema, que queria mesmo assim. Perguntei se ela falava inglês ou francês e ela disse que não!! Apesar dela saber que meu nível de alemão é baixíssimo, ela insistiu que eu tentasse e ainda soltou a pérola de que o Marco poderia traduzir!!! Hahahaha!

-Os franceses são super formais em alguns aspectos, como te chamar de “vous” em vez de “tu”, mas perguntam na lata quanto você ganha numa primeira conversa!

Ontem tinha uma comida especial no restaurante universitário: paella. Me animei e fui certeira, toda feliz. Era filé de peixe com arroz!

-A coisa aqui é bem escolar mesmo. Minha professora de francês reclama horrores quando alguém se atrasa, falta ou não faz o dever de casa! E a turma é só de adultos. O filho de uma amiga foi castigado, tendo que passar 5 horas preso na escola depois do fim das aulas por ter esquecido de devolver um livro na biblioteca!

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

vida de faxineira

limpando o quarto do filho do patrão, que deve ter uns 18 anos, vi uma pistola, meio escondida numa caixa com fundo falso. O que fazer?!  
(by the way, o quarto não devia ser faxinado desde a década de 80!)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

de volta


lindos do meu Brasil,
faz um pouco mais de duas semanas que eu voltei e ando querendo escrever desde então pra agradecer tanto calor, que me renovou as energias pra encarar esse inverno brabo (aliás, oficialmente nem é inverno ainda e eu não consigo imaginar como vou sobreviver, pois mal consigo andar com tanto casaco,meias, bota, luvas, gorro, cachecol)! 
De cara, foi muito esquisito estar aqui de novo, sensação de desterritorialização, como no inicinho. E o curioso é que isso aconteceu na minha chegada no Brasil também, pra qual eu estava tão, mas tão empolgada que, de repente, ao desembarcar no Tom Jobim, ficou tudo estranho-familiar (papo psicanalítico). Também, depois de voltar a me sentir em casa, esses 17 dias aí foram um carnaval maravilhoso pra mim!!
Enfim, foi duro voltar, especialmente por conta do frio, que já estava bem mais cruel do que quando tínhamos saído daqui. Se por um lado, a rotina exaustiva de ir pro mestrado ficou ainda mais difícil com o frio a ser encarado nos intervalos intermináveis entre um trem e outro, por outro lado, foi bom logo estar super ocupada e não ter tempo pra ficar "fazendo o luto" de ter deixado mais uma vez a pátria amada. E essa ambivalência em relação ao mestrado permaneceu até hoje: um lado da moeda me permite conhecer e estar numa cidade incrível (Strasbourg é lindíssima, com seus vários canais e arquitetura medieval, e ao mesmo tempo super cosmopolita, com mil eventos e gente do mundo todo e de todos os tipos! Além disso, nesta época as folhas têm oferecido um espetáculo de cores entre o amarelo e vermelho - dizem que este outono está especialmente bonito. Sem falar na decoração de natal, que começou nesta semana, tendo a cidade um dos mais famosos mercados natalinos - algo super típico aqui); o outro lado é sofrer em aulas intermináveis em que o pouco do francês que eu entendo me diz que o nível daqui, pra minha triste decepção, é fraquíssimo!! As aulas me lembram o início da faculdade e, apesar disso, eu me sinto tendo um retardo mental moderado ao não entender boa parte do que é dito e fugir das pessoas pra não ter que falar! Sem condições, então, de participar nas aulas, coisa que eles super fazem (aliás, rola um clima meio infantilizado, em que todos querem falar, muitos estão com seus notebooks, a maioria anotando freneticamente cada sílaba do professor! Ocorre que o mestrado aqui é quase uma continuação obrigatória da graduação, que é muito mais curta que a nossa). É muito estranho estar de novo neste lugar de iniciante, em que ninguém me conhece e eu não sou ninguém aqui, apesar da minha trajetória. Embora venha aprendendo com essa experiência, durante as duas últimas semanas, surgiu várias vezes a vontade de largar o mestrado, que me parecia só um investimento enorme - pessoal, financeiro, temporal, físico - sem retorno, pois além de ter a sensação de que não vou aprender nada, sequer sei se vou conseguir validar o título no Brasil. Além disso, só pensava que o que eu mais queria fazer era estar totalmente livre pra viajar e que preciso ganhar dinheiro e, tendo tempo de sobra, posso me candidatar pra faxinar mais casas (sim, agora sou faxineira!!) Mas, por outro lado, o estudo, a possibilidade de escrever uma dissertação, a própria chance de realmente aprender francês, e necessidade de me manter ocupada de forma mais produtiva no sentido amplo do termo, justificavam. E nesta semana percebi que meu francês melhorou bastante (também, ouvindo a tal língua o dia inteiro, fazendo dois cursos e tendo dois Tadem Partners - que são amiguinhos que te ensinam uma língua em troca de você ensiná-los a sua): tenho tido coragem de me aproximar das pessoas, já consigo acompanhar as aulas e descobri que uma delas (uma!) é até interessante! Aí fiquei bem animada, achando que é isso mesmo, que as coisas levam um tempo pra se delinear.
Pra além disso, o fato de estar agora adentrando numa outra cultura (apesar de Strasbourg ser aqui do ladinho e já ter pertencido algumas vezes à Alemanha, é um novo mergulho antropológico!) me permite novamente exercitar do zero meu olhar de estrangeira, o que pra mim é o mais rico dessa experiência de morar fora - você desnaturaliza tudo o que é familiar e aprende um bocado com as diferenças, incorporando o que é legal na outra cultura, valorizando o que é bacana na sua, e tendo um olhar mais crítico com o que não presta e você nem tinha reparado). É engraçado isso de já ter naturalizado coisas que antes pareciam tão estranhas, como separar o lixo. Isto foi algo que me deu uma dor de cabeça enorme no início (aqui na Alemanha são 7 tipos de lixo!), mas que acho que vale como aprendizado pro resto da vida. E cá estou eu achando um ABSURDO os franceses não separarem lixo, querendo jogar o orgânico em um lugar diferente da embalagem no restaurante universitário!! Aliás, só pra manter o hábito dos meus relatórios engraçadinhos sobre as diferenças: os franceses ADORAM assoar o nariz! Mas é uma coisa tão intensa, que não tem uma aula que alguém não peça um lenço (na sala, na rua, no bonde, todo mundo está com seu saquinho de lenços a tiracolo, e na maior parte das vezes assoando nada!) Mas também quando tem o que assoar, o troço é tão alto que rola um meio minuto sem ouvir o que o professor está falando (em geral exatamente naquele momento em que eu finalmente consegui começar a acompanhar alguma coisa e que eu vou levar outras 2 horas pra retornar ao fio da meada!) Outra mania francesa são os fones de ouvido - não se vê uma criatura abaixo dos 35 anos na rua sem um mega fone de ouvido, desses que até parecem protetor de orelha pro frio! E aí no bonde as músicas se confundem, tão alto que se ouve. Falando em bonde, rola uma burrice generalizada do povo colar nas portas e não gostar nem um pouco de dar licença pra quem quer entrar, o que faz com que seja uma guerra pegar um bonde, que parece mega lotado, mas na verdade está vazio nos corredores! E eu que sempre tento passar pro corredor, levo umas caras bem feias por ter que pedir licença! Mas em geral os Strasbourgeoises são super simpáticos e solícitos, sendo tantos estrangeiros presentes na cidade, que o inglês é quase língua oficial também, apesar da nossa ideia de que não se fala inglês na França. 
Bom, outras coisas são iguaizinhas à Alemanha, como a comida (só muda o nome!!) e as escovinhas de privadas em todos os banheiros públicos (dos restaurantes à universidade, você deve limpar a privada com escova que fica ali, em cada cabine, já com o desinfetante no suporte dela, após fazer o número 2!)
Bom, queridos, já chega de escrever! Tô com feijão no fogo (sábado tem feijoada pra brasilianada do Instituto Goethe - onde Marco fez o alemão nos meses inciais). Pois é, tô ficando especialista é em dona de casa, esse tal mestrado é só um passatempo!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

o primeiro dia de aula é sempre como o primeiro dia de aula


Tá certo que eu sou chegada a um desafio. Eu mergulho de cabeça nos projetos mais absurdos e desconhecidos e, sortuda que sou, sempre dá tudo certo. Aí lá fui eu me meter a morar na Alemanha e fazer mestrado na França, achando que podia ainda fazer a acrobacia de estudar alemão, em vez de francês, que é um bocado precário pra quem ambiciona fazer um mestrado. E vai lá a criatura pro primeiro dia de aula, desta vez super tranqüila e segura, após a experiência bem-sucedida da inscrição, em que achava que não conseguiria comunicar nem “olá, vim fazer minha matrícula” e no fim funcionou super bem. Bom, pulando o atraso do trem, as várias baldeações que preciso fazer, as 3 horas de viagem e a parte em que eu resolvi ir a pé pra Universidade e que me perdi várias vezes e cheguei esbaforida, molhada de chuva e atrasada, o meu mais novo desafio começou lindamente. No que entro no instituto de psicologia perguntando sobre a reunião do mestrado, uma simpática senhora vira-se, sem que eu precisasse me apresentar, “Madame Kempér!” “Seja bem-vinda” e pede pra uma moça me levar até a sala de reunião. Uau, quer dizer que já sabiam quem eu era e eu nem precisava falar francês?! Que alegria! A mocinha, meio antipática, me acompanha e entra também na reunião. Idiotamente sento eu na cabeceira, onde havia uma cadeirinha livre, e onde se revela ser o lugar dos professores! Depois tentei trocar, mas foi tarde demais, me mandaram ficar. E a NOJENTA, CACHORRA, VACA da diretora do mestrado fala meia dúzia de informações inúteis e pede pras pessoas se apresentarem. Eu, morrendo de medo de ser a escolhida pra começar, pois estava bem do lado dela, mas, ufa!, meu anjo da guarda estava lá e o pesadelo começou pelo outro lado. Eis que a mocinha que entrou comigo se apresenta como brasileira, explicando que era seu segundo ano lá. Eu, toda feliz da vida, quase fico com câimbra facial de tanto sorrir e tentar me comunicar magicamente pelo olhar: “que legal, eu também, olha que lindo!!” E a brasileira, francesamente, caga mil kilos! Aí todos falam seus nomes, o que farão de estágio ou inserção em grupo de pesquisa, e seu tema. E eu, curiosamente tranquila, sendo a última a falar, faço exatamente o mesmo. Eis que a cachorra vira-se e diz: “em primeiro lugar, o fulano (de cuja pesquisa eu vou participar) não é professor; ele é apenas um colaborador associado. Em segundo lugar, “o que miséria tem a ver com psicanálise?” “Você está num mestrado em clínica”! Eu devia ter dito: “ah, jura?! Que coisa, me inscrevi neste programa, tive o trabalho de escrever um projeto de mestrado e preparar um dossiê enorme que foram aprovados por vocês, vim até aqui fazer a matrícula, gasto uma fortuna e um tempão, tendo que mudar de trem 3 vezes pra chegar até esta Universidade, e não tenho Ideia do que se trate!” Mas eu travei, paniquei, e não consegui explicar a relação entre meu projeto e clínica, que já é difícil de explicar em português, mas que, sim, obviamente, existe. E a vaca continuava a olhar pra mim: “então?” E eu não conseguia falar nada, as palavras não vinham!! Foi horrível! Até que eu consegui dizer que meu francês não era bom, mas que eu acreditava que aos poucos eu ia pegar, e que era difícil pra mim explicar, mas que, naturalmente, tinha a ver, sim. Mas depois disso quis morrer, desaparecer e, obviamente, não escutei mais nada da meia dúzia de abobrinhas que ela falou. E essa maldita reunião que me custou minha auto-confiança, a empolgação com o mestrado, 6 horas de viagem e 28 euros, durou menos de uma hora (embora tenha parecido uma eternidade!) e não me esclareceu uma vírgula das 247 dúvidas que tenho (a começar pelo horário maluco, que a cada vez que eu entro na internet pra confirmar, muda).
Bom, talvez eu não dê mesmo pra coisa acadêmica, apesar do meu percurso universitário (fui bolsista de iniciação científica a faculdade toda e era ótima aluna). Mas pelo menos eu sei fazer feijoada!! E mais: sei fazer duas feijoadas divinas em dias consecutivos (é, a primeira não durou até o almoço do dia seguinte!) Aliás, desafios não faltaram nesses últimos meses: aprendi a ter um novo estado civil, a gerenciar uma casa, a deixar de trabalhar loucamente, a cozinhar, faxinar, lavar roupa, a falar um pouco de alemão, a me virar neste país esquisito e a ter a cara de pau de encarar fazer um mestrado numa língua que eu não domino tão bem. E pra isso, preciso aprender, segundo minha amiga Olívia, ainda uma outra coisa: a fazer cara de cú quando a sorte, excepcionalmente, não estiver soprando a meu favor! :o)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

e-mail de 15 de setembro


Lindos,
Ando sumida, né? É que o negócio aqui esteve badalado: muitas visitas e várias viagens, uma delícia! Tio e prima, cunhada e cia e outra prima proporcionaram a maravilha de receber pessoas especiais na nossa casa gostosa e de viajar bastante por aí. Nossa, foram vários os destinos e vou dar uma de metida e citá-los aqui pra animá-los a vir ver como estamos no coração da Europa, de onde dá pra fazer várias viagens bate-volta:
 Rottemburg e Rothermburg (a Alemanha é tão louca que tem duas cidades próximas com nome igual e obviamente primeiro fomos parar na “errada”, que não deixa de ter seu charme! Mas a segunda é uma cidade medieval super preservada, completamente cercada por uma muralha) Stuttgart (cidade grande, rival aqui de Karlsruhe – tipo Rio e São Paulo, mas também bonita); Tübingen, Schiltach (duas cidadezinhas que parecem de boneca, com arquitetura enxaimel, a segunda no meio da Floresta Negra); o roteiro de Mainz a Koblenz, margeando o Reno com castelos cinematográficos cravados nas montanhas; Nuremberg e Bamberg (também preservadíssimas e cheias de história); Strasbourg (onde estarei quase que diariamente a partir de semana que vem e que é encantadora com seus vários canais); Baden-Baden (aqui do lado, é referência pelas termas); Praga (a mais incrível de todas, tem algo de mágico indescritível); Dresden (uma das cidades mais bombardeadas na II Guerra, hoje é símbolo da restauração alemã); Berlim (onde estive na casa onde meu pai nasceu!); Konstanz (principal cidade do Bodensee, a “praia” daqui); rota dos vinhos na Alsácia (lindíssima, com cidadezinhas de contos de fadas, cada uma com dezenas de vinículas familiares); Ulm (outra cidadezinha fofa, onde descobri em pleno centro histórico uma loja de aparelhos de som chamada Kemper); Dachau (o famoso campo de concentração – turismo forte esse); Murten (na Suíça, também cercada por uma muralha medieval, onde assistimos a um concerto lindo num castelo); Montraux, Lausanne e Gruyère (cidades suíças que parecem de mentira de tão lindas); Hamburgo (grande, a 2ª maior da Alemanha, especial pelo seu importante porto).
Ufa! Mas agora, de volta ao sossego desta minha roça, as férias mais longas da minha vida continuam!  Sofri horrores com o medo de não conseguir me comunicar na inscrição do mestrado, uma vez que o meu francês tinha ido parar num registro cerebral de algum lugar ainda não descoberto pela anatomia! Mas, ainda bem, ele logo foi ativado e deu tudo certo na matrícula. A galera foi super acolhedora e eu fique beem animada de recomeçar uma rotina bonitinha, de ter uma vida útil, essas coisas de estudar, sair de casa, voltar, igual a uma pessoa normal. Mas eis que a Universidade, bem no estilo brasileiro, resolve adiar em uma semana o início das atividades e eu ganhei uma semana de férias extra! Cá estou eu, então, às voltas com meus incríveis progressos culinários e na área das faxinas e lavagens de roupa! É, tenho me saído uma bela dona-de-casa! E agora, 17 kg mais gorda (tudo bem que todo mundo  sabe que é comum a mulher engordar depois do casamento, mas, peraí, eu usei essa desculpa, somada à de estar num país altamente calórico e extrapolei o limite do razoável em tempo recorde!), tenho o plus da missão de inventar pratos de baixíssima caloria porque encasquetei que tenho que emagrecer 10kg até novembro (senão vocês não vão me reconhecer na minha tão esperada visita ao Brasil! Sim, estou indo em novembro (!!!) mas já falo disso). Então tenho inventado coisas interessantíssimas – tipo sálvia na frigideira de tefal (sem gordura, claro!), alho no forno, couve-flor com alecrim e as sopas mais variadas.  Mas a missão do momento é conseguir o milagre de fazer da minha primeira feijoada uma delícia, pois finalmente teremos o nosso “open-house” com os nossos 10 amiguinhos que angariamos ao longo desses 5 meses aqui! Aí eu quero fazer bonito, com direito a brigadeiro e goiabada de sobremesa (graças à Eliana que, além de nos proporcionar uma boa parte daquelas viagens listadas acima e de ter me apresentado a várias artes da culinária, trouxe feijão, farinha de mandioca, cachaça, pão de queijo e goiabada!). Mas essas iguarias todas vão ter que parar na barriga apenas dos convidados e do marido, que ama muito tudo isso), porque a dieta aqui tem que resistir! Bom, voltando ao melhor assunto dos últimos tempos – MINHA IDA AO BRASIL, VIVA!! – a tarefa que nesses últimos dias tem mais me ocupado é de procurar passagens (tá caríssimo!). Tô me sentindo uma jogadora compulsiva - cada vez que olho os preços acho tão alto que fico na esperança de baixar, mas no dia seguinte aumentou!! É aquela esperança irreal que só te faz perder mais dinheiro! E o pior é escolher quais inúmeras aulas faltar, já que vou estar começando o mestrado (não tenho idéia do que é importante e o que não é e o raio do calendário de aulas muda a cada semana!). Bom, mas o motivo é nobre: vamos ser padrinhos de casamento do meu cunhado e, de quebra, mato as saudades!
Beijo gigante
E até breve
Maria

domingo, 24 de julho de 2011

Ich liebe Deutschland


Hoje comemoro 4 meses de Alemanha. Que louco! Ao mesmo tempo que passou muito rápido, parece que minha tão cara vidinha brasileira está num passado meio longínquo... Já me sinto em casa aqui, é como se cada vez menos estrangeira eu fosse. Aos poucos, a cultura alemã nos é tão familiar que já nos acostumamos com o que antes causava tanta estranheza. Acho que, nesse sentido, o que merece mais destaque é a total quebra dos estereótipos que tínhamos. Pra começar, os alemães, pelo menos os daqui do sul, não são, de maneira geral, nem altos, nem louros (naturais, porque, curiosamente a maioria das mulheres pinta o cabelo de louro claro). Alguns dos apartamentos que visitamos no início foram descartados porque simplesmente nós dois (tudo bem, muito altos para os padrões brasileiros, mas para os alemães também!) não cabíamos debaixo do chuveiro, ou mesmo para lavar louça, por o teto ser muito baixo! Mesmo aqui na nossa “mansão”, que é sótão, muitas vezes batemos a cabeça nas quinas do teto até nos acostumar. Outro ponto que muito me intrigou é que os alemães, que, são, sim, muito organizados em alguns aspectos, são às vezes tão caóticos e burrocráticos como nós. Na prefeitura onde nos registramos, foi um problemão para eu conseguir minha permissão de residência: mesmo com toda a documentação do DAAD (programa de intercâmbio do Marco, que é vinculado ao consulado e que estimula também a vinda de cônjuges) e com todas as orientações, tivemos que voltar lá 7 vezes e a cada ida, a funcionária dava uma informação diferente, uma nova exigência que me impedia de conseguir o visto! Tivemos que, com o nosso jeitinho brasileiro, pedir a intervenção da pessoa responsável pela bolsa do Marco! Não houve um contrato que assinamos aqui (telefonia móvel, internet, aluguel, academia) que não tenha nos dado a maior dor de cabeça. Pra começar, ao contratar qualquer serviço aqui, você precisa dar os dados bancários e a cobrança é feita sempre em débito automático, sem sequer se receber um boleto ou uma conta! Em todos os casos listados acima, tivemos problemas: todas as prestadoras de serviço cobraram a mais ou por mais tempo, mesmo depois de termos cancelado o contrato, e pra resolver esses problemas aqui é igualzinho ao Brasil: horas de telefonemas, funcionários incompetentes, informações não registradas, com o agravante de que a gente não tem telefone fixo e todas essas ligações, feitas de celular, são caras, mesmo quando é pra própria operadora! O nosso primeiro contrato de aluguel, então, está sendo o maior problema. Depois do babaca do proprietário do nosso antigo apartamento entrar daquele jeito, ditando regras sobre como deveríamos arrumar a “nossa” casa, finalmente finalizamos o contrato na data prevista e até agora, quase um mês depois, não recebemos de volta os 540 euros da caução (aqui paga-se, além de uma taxa alta de porcentagem para a imobiliária, caso se tenha fechado um contrato de aluguel com corretor, um caução para garantir o custo de quaisquer danos feitos no apartamento). Bom, os serviços aqui são super precários, é algo inacreditável. Já escrevi sobre como são ineficientes, por exemplo, os tais corretores, que recebem o valor de cerca de 3 alugueis (uma média de 1500 euros!) pelo “trabalho” de te mostrar um apartamento. A má qualidade do atendimento é meio regra geral aqui: é raro encontrar uma garçonete que não seja antipática, ou um comércio que tenha funcionários prestativos. Eu atribuía à cultura de independência dos alemães o fato de, por exemplo, numa loja você ter que se virar pra procurar seu tamanho de roupa ou de sapato, ou comprar um móvel em que você mesmo busca as peças na loja, carrega pra casa e depois monta. Mas tenho reparado que também tem a ver com a maneira como se encara o trabalho. A impressão que dá é que as pessoas não se preocupam em trabalhar bem, talvez por não haver tanta concorrência no mercado de trabalho, ou pelas taxas de desemprego não serem tão altas. Certamente tem também a ver com uma qualidade de vida maior, em que, em geral, se chega em casa às 5 da tarde, e muitas vezes não se trabalha às sextas-feiras. A mentalidade capitalista, definitivamente, não reina aqui: além de ninguém estar nem aí para a qualidade do serviço prestado e se o cliente vai ou não voltar, o comércio aqui NUNCA abre aos domingos, fecha, em geral, às 20h o mais tardar e, comumente, não funciona às quartas, além de alguns fazerem uma pausa diária para a siesta! Aqui não existe mercado ou qualquer outra coisa 24 horas, nem entrega em casa, nem serviço em domicílio, nem funcionário para fazer por você qualquer coisa que você possa fazer sozinho! A exceção é para o comércio ou para funcionários estrangeiros, estes sim super simpáticos e muitas vezes com horários menos germânicos. Aliás, os estrangeiros, como eu disse em outro post, parecem maioria aqui. São vistos por todas as partes, muitos abrem comércio, são empregados em todos os setores da economia alemã, parece que trabalham bem melhor e, não à toa, são “importados” de todo o mundo para fortalecer a economia e a academia alemã. Aos poucos começamos a entender esse estímulo do governo alemão para a vinda de estrangeiros (a bolsa do Marco é um exemplo). No meu curso atual de alemão, todos os professores, sem exceção, são estrangeiros! E são incrivelmente melhores que a senhorinha germânica da outra escola. Ah, a língua alemã merece um post à parte! Mas funciona igualzinho: aparentemente super precisa e organizada – tem uma palavra pra cada exato sentido (por exemplo, ir ou se perder à pé ou ir ou se perder de carro), mas tem palavras iguais para sentidos muito diferentes (por exemplo: andar e correr, namorado e amigo – tudo bem que esta diferença também não existe em inglês, mas vamos combinar que o alemão é uma língua beeeeeem mais complexa, com muito mais palavras). Fora a ordem das coisas na frase: em muitas construções é preciso dar todas as informações (sujeito, tempo, causa, modo, local) para, no final, às vezes de uma frase enorme, vir o verbo, que traz a idéia principal! Ou seja, você só diz ou só entende o sentido no final. Mas apesar de ser uma língua difícil, eu tenho adorado estudar alemão e sinto muita pena de agora encerrar o curso, pra viajar um pouco e depois me organizar pro mestrado, que começa em setembro. Agora, um ponto positivo da desconstrução dos estereótipos do alemão foi a surpresa de vê-los festivos, animados e muitas vezes tão espontâneos quanto a gente. Nos bondes, as conversas são tantas e tão altas, que chega a ser bem barulhento, ao contrário da discrição e da contenção que imaginávamos. E, apesar dos serviços, em geral, funcionarem mal, temos encontrado algumas pessoas extremamente simpáticas e prestativas. No verão, então, as ruas são uma festa, com mil eventos rolando, pessoas animadas, bebendo e curtindo a vida. Os fins de semana parecem um pouco o nosso carnaval, com festivais, gente fantasiada e muitos noivos, em despedida de solteiro, fazendo brincadeiras e abordando pessoas nas ruas, um barato. Em Heidelberg, fomos “atacados” por um grupo de moças querendo cortar a etiqueta da cueca do Marco! É claro que contribuímos para a tarefa da despedida de solteira, mas eu fiz questão de ajudar a localizar o objeto de desejo das meninas!