sexta-feira, 12 de abril de 2013

"isso é Alemanha"


Pra quem gosta de dizer "isso é Brasil":

  • Cheguei na Alemanha e meu chip daqui não funcionava de jeito nenhum. Tentei de tudo: configurações, ligar e desligar, escolher rede... Marco foi à loja pra trocar e descobriu a causa do problema: a operadora faliu!! Sem aviso prévio, todos os clientes tiveram suas linhas subitamente cortadas!
  • Chegando de viagem, encontramos mais uma carta na nossa caixa de correio cujo desconhecido destinatário indicado possuía outro endereço, que não o nosso. É a quinta vez que isso acontece...
  • (Essa eu já contei aqui, mas como adoro reclamar do correio alemão, preciso contar de novo): uma correspondência levada ao correio para ser enviada à França (aqui do lado) voltou duas vezes por insuficiência de selos (detalhe que os selos tinham sido colocados pelos próprios funcionários do correio, segundo sua própria metodologia de trabalho!) e, ao ir reclamar, por duas vezes ouvi que não se podia fazer nada, nem sequer reenviar o envelope sem cobrança adicional!
  • recebemos algumas cartinhas ameaçadoras, informando que seríamos processados por um download de filme que não fizemos (talvez o antigo inquilino daqui, cujo maldito contrato de internet herdamos, tenha o feito). Depois soubemos que "empresas" espertinhas se apropriam ilegalmente da informação de sua movimentação na internet pra tentar ganhar um dinheiro com essa "negociação" que evitaria um processo jurídico.
  • Falando de intenet, o tal maldito contrato foi continuado por nós porque as condições eram teoricamente melhores que as de outra operadoras. Acontece que, ao assumirmos, o preço quase dobrou, meu computador não conecta à Wifi, a linha fixa ofertada nunca existiu, o modem foi cobrado, ao contrário do acordado, e cada telefonema pra lá custa 1 euro por minuto e, se você tem a sorte de ser atendido, depois de muito tempo, eles dão uma informação qualquer, que certamente vai ser desmentida pelo próximo atendente (como por exemplo que basta você comprar e apanhar pra instalar um telefone fixo que a tal prometida linha funcionaria!)
  • Outra cartinha ameaçadora cobrava uma grana por um contrato nunca assinado. Demorou até descobrirmos que o tal "contrato" foi um clique dado na internet, aceitando as condições pra se cadastrar numa rede de descontos. Foram 5 correspondências agressivas e assustadoras, coagindo-nos também a um "acordo" para evitar processo.
  • Ah, e não posso deixar de mencionar a obra, a maldita obra! A brilhante ideia de reformar o nosso prédio de apenas 3 apartamentos pra ter acesso à cadeirante e energia solar (genial e subsidiado pelo governo!), conseguiu transformar o que era uma linda casinha de 3 andares, típica daqui da roça, no trambolho amarelo com porta metida à nave espacial mais feio da cidade! E o pior: a pequena reforma, que estava prevista para durar 2 meses, está rolando há um ano e agora está parada por falta de dinheiro! A tal rampa pra cadeirante foi pro brejo e a escada de entrada, refeita para receber a maldita rampa, está no concreto, cheia de entulho do lado.
  • É verdade que a vida no Rio está, sim, bem cara, mais do que aqui. Mas o preço do kilo do tomate aqui sempre foi este do qual tanto reclamam por aí...

Mas...

a diferença de salário entre a faxineira e o presidente da empresa não impede que aquela vá de carro pro trabalho e nem permite que este não faça a faxina de sua própria casa. E isso é tão importante que torna os problemas de serviço banais e que poderia ser desdobrado em milhares e milhares de outros tópicos sobre as vantagens da Alemanha.

(moral da história: na verdade, não se pode reduzir nenhum país a "isso")

sábado, 19 de janeiro de 2013

maridos pouco subjetivados ou hiperjetivados (ou "voltando pra casa" 3)

Ela: então, quando tivermos filho vamos dividir a função de forma bem equilibrada, né, pra saúde psíquica da criança, certo?

Ele: ih, amanhã não tem previsão de neve!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

à la borde

alô!

Depois de um natal maravilhoso com a família muito bem representada por cunhada e primas, e de um ano novo bem caloroso e brasileiro em Paris que me fez entender porque se ama tanto morar lá (o que me fez rever minha pressa de voltar pro Rio...), estou à La Borde. Não do mar, como brincam aqui, mas, refletindo sobre o nome dessa clínica, na fronteira, ou num espaço neutro, um território entre o mundo lá de fora e um lugar subjetivo. Trata-se mesmo de um universo à parte, que tem outro registro temporal. Pra quem não sabe, la Borde é uma clínica psiquiátrica fundada nos anos 50, muito conhecida pelo seu movimento de vanguarda, que revolucionou a psiquiatria clássica. Desde que nasceu essa ideia de me aventurar pela Europa, o estágio aqui era o maior dos projetos. E cá estou eu finalmente, depois de uma novela de milhares de telefonemas quase nunca atendidos,  de e-mails com respostas automáticas informando que o contato deveria ser por carta (!), de papeis difíceis de conseguir, do retorno sucessivo da minha documentação de estágio por conta de erros inacreditáveis do correio alemão, da notícia de que todos os estágios estavam cancelados... Ainda não sei explicar bem de que se trata esse lugar incrível, mas posso fazer uma ilustração ao descrever meus dois dias e meio passados aqui: 

cheguei na estação alguns minutos após o horário do carro da clínica que faz o transporte entre a cidade mais próxima que é servida por trem e o castelo, como aqui é também chamado (fica num antigo castelo tombado!). Liguei pra cá e entendi que eu não era o centro do universo e que não esperavam ansiosos por mim, quando disseram que, claro, o carro já tinha ido embora, apesar do trem de Paris ter atrasado 5 minutos  Esperei o próximo carro por 2 horas e meia, aflita por descobrir qual era a van branca sem identificação que me buscaria. Mas muita gente também esperava a tal van velha, suja e fedorenta. O motorista, um senhor de longos cabelos brancos, chapeu e vários aneis, depois de todos acomodados esperando a partida, mexia - a mão bem trêmula - sem parar na sua bolsa, queixando-se que não poderíamos sair pois ele não encontrava a chave do carro. Detalhe: a chave estava na ignição, com o motor ligado!! Em seguida ele deu a ré pra sair e todos gritaram, alertando-o para o movimento, aparentemente não observado, de carros e pedestres atrás. O "grand tour" pra cá, como definido por uma paciente sentada ao meu lado, foi uma aventura, com entradas radicais nos cruzamentos e o carro morrendo toda hora, além da marcha gritando por ter sido mal engatada! Isso no meio de uma paisagem deslumbrante e da descoberta do Loire, o rio que dá nome à essa famosa região (vallée du Loire). Cheguei perdida, sem saber pra onde me dirigir, ainda com a síndrome de princesa abalada por não ter ninguém pra me receber, mas logo me senti em casa, com vários pacientes me perguntando se eu era brasileira! Um dos pacientes tinha todo um discurso de boas-vindas em português pronto, desculpando-se enormemente de não ter me esperado na estação, explicando que ele era o motorista da van anterior mas que uma paciente informou que eu não viria mais (depois eu soube que a tal paciente sempre suprime alguém da lista de passageiros para vir o quanto antes!). Engraçado, desde que cheguei à Europa tenho que lidar com o estranhamento alheio ao ouvir sobre minha origem e em vez de explicar que meu pai é alemão, reforçando a imagem de que o brasileiro é mulato, conto aquela historinha de que o passaporte brasileiro é o mais valioso no mercado negro pois a gente pode ter qualquer cara. Enfim, aqui, antes mesmo de eu falar meu francês macarrônico, revelando todo o meu sotaque, os pacientes deduzem que sou brasileira e muitos falam algumas frases em português e citam dispositivos de saúde mental do Rio e figurões da reforma psiquiátrica brasileira!!  É que grande parte dos estagiários que vêm pra cá é brasileira e La Borde tem um intercâmbio forte com o Brasil, rolando até viagens com os pacientes pro Rio. Pois caí eu num quarto com duas brasileiras e se, de início, estava torcendo pra isso não acontecer para que eu pudesse finalmente mergulhar de fato somente no francês e sair um pouco da torre de babel que eu estive durante esses 2 anos, tenho achado ótimo poder conversar um pouco em português. Não sei se pela língua ou pelo esforço de tentar entender como funciona essa loucura daqui, mas tenho estado exausta! Achei que teria todo o tempo do mundo pra me dedicar a reescrever meu projeto de doutorado e pra estudar, mas são tantas as atrações daqui e tanto cansaço também, que não sobra tempo. Há mais de 30 atividades ofertadas por dia e eu fico como uma barata tonta, entrando e saindo das oficinas, reuniões e seminários, custando a entender o espírito da coisa. De cara, fiquei com a impressão de que faltava objetividade, de que se discute muito mas não se tira nenhuma conclusão e de que está tudo muito solto. Mas começo a entender que é a proposta mesmo da psicoterapia institucional, que a ideia é promover o encontro, a convivência e refletir, elaborar e reconstruir o tempo todo. É interessante como os moradores daqui são, muitas vezes, super cultos e politizados, e têm uma capacidade criativa enorme (aqui se produz muita poesia, música e pintura de qualidade). Caí no setor de convivência, no salão do palácio, que é lindo, com uma lareira e uma seleção musical impressionante (cada dia foi uma surpresa: de Buena Vista Social Club a Fado!). Aqui é bem como uma comunidade alternativa. Em geral, o povo vive aqui, seja paciente, estagiário ou equipe. Vida pessoal, trabalho e tratamento se misturam e o lema é mesmo a convivência. Todos fazemos a faxina, lavamos a louça, servimos à mesa e ajudamos na cozinha (pra além do exercício de flexibilizar meu excesso de frescura quanto à higiene, acho o máximo!). É impressionante como a coisa dá super certo sem que seja preciso definir quem vai fazer o que quando! Muitas vezes fico sem saber se alguém é paciente ou membro da equipe e logo percebo como a gente tende a buscar rotular, a partir de nossos pré-conceitos, de antemão. Tem sido interessante esse exercício de tentar desconstruir isso (pouco importa saber se fulano é paciente ou equipe!), desligar um pouco da necessidade de organizar, enquadrar ou buscar regras (me dei conta do absurdo da minha ansiedade com a grande profusão de oferta de atividades, que às vezes nem acontecem, sem que eu tivesse uma clareza quanto ao objetivo, ao funcionamento e à conclusão!) Por exemplo: há um aviso de que é proibido fumar em vários dos locais fechados, mas, invariavelmente, fuma-se, e muito, em qualquer lugar (inclusive sentado à mesa, com as janelas todas fechadas!) Acho que não há uma pessoa das cerca de 250 que aqui estão que não fume! E eu achava que não fumaria nada nessa minha fantasia de que esses dois meses aqui serviriam como um SPA! Pois o plano de aproveitar pra comer super regrado e emagrecer foi também por água abaixo. A comida, que eu esperava que fosse ruim, é divina! E além das 3 refeições com entrada, prato principal, salada, sobremesa, pão e, no jantar, queijo, além do café, toda reunião tem um chá, outro café e eventualmente algo mais pra acompanhar (hoje teve Listerine servido num seminário, mas disseram que era refresco de menta!!) Como se não bastasse, tem a farra noturna dos estagiários, com mais guloseimas e bebidas de vinho à vodka...

Mas eu ando tentando ficar recolhida, sem cair na tentação das festas, pois tenho que reescrever meu projeto de doutorado. Essa é outra novidade: vou concorrer, cheia de ambivalência, a uma bolsa da CAPES pra doutorado no exterior! Depois da pilha forte dos amigos de Paris, resolvi embarcar, sem saber bem o que faria se eu conseguisse a bolsa. Mas isso é papo pra um outro e-mail...


Muitos e muitos beijos labordianos

Maria

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

rabugenta


A Alemanha é admirada pela sua organização, na qual tudo funciona bem. Trata-se de um desses estereótipos que tem lá sua verdade mas que volta e meia nos frustram. Fiquei até envergonhada com a quebra do ideal quando as últimas visitas estiveram aqui: tinha bonde atrasando, mendigo pedindo dinheiro, homem dando cantada, e até trem quebrando!! Nesse momento, estou é achando a Alemanha um grande exemplo de caos e burocracia kafkaniana. A última foi a saga do correio: depois da maratona pra finalmente receber, desvendar e conseguir preencher um documento pro estágio, desejado desde antes de eu vir pra Europa, fui às pressas ao correio, numa caminhada de 15 minutos na agradável temperatura de 3 graus, pra mandar o raio do papel. Perguntei se havia alguma modalidade de envio mais rápida para a França, mas a alemã, como sempre muito econômica, disse que era muito caro. Ela falou que o prazo era de 5 dias, e, fiz as contas, daria tudo certo pra próxima etapa da maratona (receber documento assinado pela clínica, encaminhar pra professora, pra responsável pelos estágios, pra secretária do doutorado, pro reitor e pra Deus), fase que tem que terminar entre natal e ano novo, um período óoootimo para a burocracia andar. Enfim, primeira missão cumprida, não é que o documento voltou pra minha casa no sábado, com um aviso do correio de que havia selos insuficientes?!  Oras, eu tinha postado o raio do envelope através no próprio correio, depois de encarar fila e esperar a retardada da funcionária esclarecer com a colega todas as suas mil dúvidas sobre como mandar uma carta pra França! O pior é que eu tinha pagado o valor do envio internacional, a anta é que não colocou um selo. Me corroí de raiva ao perceber que não chegaria em tempo se eu postasse de novo na segunda e ao descobrir que o único correio aberto no sábado à tarde era o de um shopping em Karlsruhe, me obrigando a encarar 40 minutos de viagem até lá; dessa vez pelo menos num friozinho de 4 graus. Pois chego eu no endereço indicado na página do correio na internet e se trata de um balcão de assinatura de tv a cabo! Ok, eles também despachavam envelopes: cobravam a remessa lá e esperavam o correio vir buscar... na SEGUNDA-FEIRA! Genial, pedi pra postar com urgência, dane-se o preço. Mas esta modalidade ele só tinha para pacote, não pra envelope. Então o funcionário, super gentil, embrulhou meu envelope inteiro com uma fita de pacote e, apesar de ultra tosco e dele não saber se devia me cobrar o valor integral ou subtrair o valor do selo que já estava no envelope, disse que “com ele não tinha erro”. Tive vontade de ir lá rogar uma praga de azar sexual eterno quando o maldito envelope me aparecer de volta em casa na quarta à noite!! Fiquei louca! Carreguei o Marco pra ir comigo na central dos correios reclamar, pois minha experiência de tentativa de queixa no correio aqui da roça tinha sido traumática (depois de passar vergonha ao ter dificuldade de explicar no meu alemão sofrido, diante da fila-público, que o-envelope-que-ela-tinha-mandado-voltou-com-a-informação-de-que-não-havia-selos-suficientes-mas-que-eu-tinha-pagado-o valor-certo-e que- eu-perdi-o-meu-sábado-no-frio -por-causa-disso, ela cagou baldes, me olhando com cara de “não estou entendendo”.) Bom, após uma fila monstra no correio central e a explicação do absurdo para a funcionária, a imbecil diz que não podia fazer nada pois "não tinha sido erro dela"! E depois de muitos argumentos ignorados, terminamos dizendo que ela, como funcionária, representava o correio, ao que ela respondeu, no radicalismo da lógica alemã de "cada um por si",  que, não, de forma alguma! E pra piorar, não quis mandar meu envelope nem eu pagando de novo, pois "estava muito velho"! 
Hoje liguei pela 17ª vez pro curso de alemão que quero fazer e, finalmente atendida, soube que sou obrigada a fazer uma prova de nivelamento pra definir em que curso devo me matricular e que, não, não posso simplesmente experimentar uma aula, mesmo sabendo muito bem em qual nível parei de estudar. Tive que ligar mais várias vezes pra confirmar que o teste não era pago. Cumpri o script e fui lá fazer a prova em vez de começar logo o curso, e ganhei de presente 7 graus, bem melhor! Chegando lá tinha que esperar atendimento, no qual se preenchia uma ficha para ficar na fila para fazer a prova. Prova feita, devia-se esperar a correção para conversar com um professor pra ele te perguntar em que nível você quer ficar!! E tinha que pagar o raio da prova sim, inacreditável. E não adianta nada dizer que ligou de manhã e falou com a atendente que disse que não tinha que pagar.
Tem também a novela dos contratos, nos quais não é preciso assinar nada para se prender a um serviço em que se é obrigado a pagar por 2 anos, sem possibilidade de cancelamento, mesmo quando as condições apresentadas por um vendedor não condizem com o serviço prestado e os atendentes de um número para o qual a ligação custa 1 euro por minuto dizem cada hora uma coisa. Papo de você ter um plano de internet que custa 20 euros por mês e ser cobrado em 25 euros cada mês. Aí você liga e gasta 4 euros pra ser atendido e a pessoa informa que os 5 euros a mais é porque você tem direito a telefone fixo também (só nos faltava o aparelho!) Comprado o aparelho, descobre-se que não se sabe como fazer funcionar o telefone e paga-se de novo uma longa ligação pra ouvir do atendente que não, não há telefone fixo no nosso contrato! E depois de dezenas de outras chateações com a internet, a gota d´água foi a cobrança de um modem que não sabíamos ter que pagar. Tentar cancelar é roubada, eles te processam por interromper o contrato antes da hora.
E só para completar o meu desfile de chatices nesse post tão ruim que ninguém vai ler, mas que tem a função de botar pra fora minha frustração com a tal organização alemã: mesmo aqui na roça, mesmo sendo um prediozinho de 3 andares, o governo subsidia reforma para acesso a cadeirante e para uso de energia solar. Bacana pra caramba, ainda mais quando vemos aqueles prédios sendo construídos, guindastes até pra botar uma janela numa casa de apenas um andar, tecnologia altamente avançada, tijolos enormes que isolam o frio e fazem circular o ar no calor, pouquíssimos funcionários e uma casa que brota em 2 meses, tudo lindo! Apesar da chatíssima reunião de “condomínio” (são 3 apartamentos) pra decidir se queríamos venezianas que abrem e fecham girando a manivela ou puxando a corda pra cima ou pra baixo, me senti super respeitada com a democracia da decisão (poxa, a gente vai ficar tão pouco aqui e nossas preferências estão sendo ouvidas e acolhidas!) e com a loooonga explicação sobre cronograma e como tudo ia funcionar. Bom, não cabe enumerar a sucessão de absurdos que tem sido essa obra, que cimenta o vidro lindo que iluminava o interior do prédio e troca portas de madeira por portas de metal cinza que mais parecem naves especiais (contextualiza que estamos numa ruazinha, no meio do nada, chamada “Floresta Negra”!), além de deixar há 6 meses uma sujeira permanente, isso sem mencionar o barulho. Mas só pra terminar o desabafo: a primeira surpresinha foi quando voltamos de viagem, isso em agosto, com os sogros, que iam finalmente conhecer nossa casita linda, e havia um caos instalado! Os operários pegaram a chave com a vizinha e, durante nossa ausência, remontaram as janelas, que, além de ficarem horríveis, deixaram um lastro de poeira na casa toda.  Quatro meses sem esquadrias nas janelas (horrível) se passaram e hoje voltaram a colocá-las, depois de 25 agendamentos, esperas e estadas em casa pra receber pedreiros que não vinham. Foi assim: hoje, sem que se esperasse, vieram logo dois caras. Marco foi abrir a porta, às 8h da manhã, como de costume. E estou eu ainda transitando do mundo onírico pro mundo dos acordados, quando entra um homem no quarto, cuja porta estava fechada, sem nem bater! Sim, bom dia!
Ah, exemplo mesmo da organização alemã é a caixa do supermercado. Não importa qual mercado e em que lugar da Alemanha, elas são incríveis! Você colocou seus produtos na esteira e, ainda não conseguiu abrir a bolsa pra tirar a carteira e ela já passou tudo (pode ser grandes compras do mês!) e já está te olhando repreendedora porque você ainda não guardou tudo nas suas sacolas de compras que você levou de casa (você não conseguiu nem começar a guardar e ela já começa a passar as compras do outro, que rapidamente se misturam com as suas). Uma loucura! Morro de medo de ir ao mercado. Fico tão nervosa de lerdar, que nunca achava a carteira em tempo! Agora já estou esperta: vou pra fila com a carteira na mão e as sacolas a postos, pra correr pra ponta do caixa e tentar botar tudo dentro o quanto antes, isso tudo tremendo! Bem que essas caixas podiam trabalhar no correio ou na obra aqui de casa...

terça-feira, 27 de novembro de 2012

mais um daqueles mails

lindos do meu Brasil,
descobri uma enorme desvantagem em receber visitas queridas e em viajar por aí: quando acaba a farra eu fico péssima!! Estou assim, com o coração partido, vazia e desterritorializada com a despedida da Manu e de amigas queridas que foram o melhor presente de aniversário! E agora que o inverno se aproxima, que os dias são curtíssimos, que eu tenho que encarar um início de doutorado pro qual não estou nem um pouco empolgada, tudo parece meio melancólico.
Mas, dramas à parte, não posso reclamar da vida. Tenho aproveitado muitíssimo esse tempo cá nessas bandas. Já viajei mais do que minha megalomania poderia supor e tem mais por vir (engraçado como passar o ano novo em Paris se tornou algo meio banal. Ai, desculpa, gente, eu tô muito nojenta!!). Vêm mais visitas aí e já é natal na leadermagazine. Depois começo o tão esperado estágio em La Borde e, pronto, já será reta final pra volta!! O plano é correr pro abraço do cristo redentor em setembro do ano que vem, mas certo mesmo, não temos nada. Só que o Marco tá bombando, com mil concertos marcados, fazendo um super sucesso e, naturalmente, amando essa vida alemã. E, ao mesmo tempo que eu não quero ser a estraga-prazeres e que é uma alegria enorme acompanhá-lo nessa conquista tão legal, minha licença vence em outubro do ano que vem, renovar é difícil e eu não aguento mais ser uma pessoa inútil!! Até meu empreguinho de faxineira rodou (minha "pratoa" disse que era férias demais pra ela, haha!!)
Bem verdade que tem um monte de coisas chatas pra resolver e vida acadêmica pra tocar, mas isso de não ter muito horário certo pra nada dá uma preguiça... No momento tenho me ocupado com artigos pra publicar, já que o sentimento de inutilidade gera uma necessidade de existir ao menos virtualmente, mesmo que seja escrevendo alguma coisa que ninguém vai ler. Aliás,justamente por isso, estou numa ambivalência enorme: num ato de abusada ousadia, mandei minha dissertação pra uma editora e... eles aceitaram publicar!! Mas... desde que eu pague uma parte dos exemplares, rá!! Aí fico eu sem saber se é jogada comercial, se a renda deles se reduz a pobres autores pagando pelo privilégio medíocre de escrever um livrinho na vida só pra completar os mandamentos "escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho" (aimeusdeusu, eu só plantei uma árvore e já estou com 32 anos!!!). Ou se de fato o troço é publicável, mas, tadinha de mim, não é comercial, como eles disseram. Afinal, quem quer ler sobre pobreza?! Pra além da dúvida de se vale ou não investir esses cerca de 2 mil reais pra ficar faltando só ter um filho de verdade depois, fico sem saber se tenho coragem de dividir essa cria intelectual com o mundo (rss, até parece que o "mundo" vai ler!! Mas, vocês, vítimas de um possível lançamento de um improvável livro, podem resolver um dia ler e, mesmo que seja um parágrafo, morro de vergonha de não estar bom!!) Bom, quem não tem mais com o que se preocupar, arruma sarna pra se coçar...
Ah, mas assunto muito mais legal, é viagem, alimento pra alma. Dessa vez rolou até de desbravar um outro continente! Estivemos no Marrocos e, realmente, é um mundo à parte. Só pra finalizar esse e-mail pedante, uma historinha pra dar uma pequena ilustrada do que é a cultura da negociação de tudo: chegamos no aeroporto (quatro mulheres!) meio perdidas e sem saber direito qual era a da parada. Tínhamos reservado um transfer pra ir até o albergue, justamente porque não sabíamos o que seria de nós no contexto chegar na África, num país extremamente machista e radical (enfim, não é bem assim como pinta o estereótipo). E tínhamos também combinado de encontrar um amigo de um guia super indicado para nos levar ao deserto, que iria nos entregar as passagens de ônibus para a tal viagem. Bom, o cara se aproxima propondo sairmos do aeroporto para "tomar um negócio" com ele lá fora! E insiste que não precisaríamos de transfer que ele nos levaria ao albergue! Eu, que logo depois me acostumei a sentar, tomar litros de chá e conversar durante horas até chegar num comum acordo de preço para comprar um brinco, uma sandália ou 10 gr de açafrão (!!), ainda não tinha sacado que o " ir lá fora tomar algo" era só parte da negociação e logo deixei o homem ofendido ao errar duplamente: disse que não ia lá fora e disse que não pegaríamos carona pois já tínhamos pago um transfer (aiaiaiai, quem disse que pode mencionar dinheiro antes da hora?!) Levei um baita de um fora e as meninas que foram encarar a negociação simplesmente receberam a proposta de, pela bagatela do mesmo preço da passagem de ônibus, pegar uma carona com o amigo do tio do cunhado do vizinho dele pro deserto, a 700 km de distância!!! Obviamente recusamos a proposta irrecusável e quase saiu briga entre ele e o motorista do transfer, esse já irritadíssimo com a gente, dizendo que não ia esperar nem mais um segundo e indo numa batida difícil de acompanhar pro estacionamento... Bom, nesse mesmo dia nos perdemos 984 vezes na medina de Marraqueche, sem poder aceitar informação dos 25 homens que nos abordavam desesperadamente para nos levar, desviando o tempo todo de motos, cavalos, carros, pedestres, carroças, carnes podres cheias de mosca (à venda!!) etc. Mas logo entendemos como as coisas funcionavam e aproveitamos muito, com direito a um espetáculo de estrelas cadentes na noite no deserto e um meteoro que cruzou a lua numa cena tão emocionante que achei que, de fato, era o fim do mundo. 
É, somos muito pequenos nesse mundão... há muito o que conhecer e aprender e, quanto mais se o faz, menor e mais sem lugar nos sentimos. Mas é uma delícia, assim como o é escrever pra vocês, o que me faz sentir situada e cheia de calor brasileiro!
Um beijo enorme,
Maria

domingo, 5 de agosto de 2012

melancia


Você percebe que está europeia quando vê um potinho com melancia cortada por 3 euros e compra sem pestanejar, se achando a maior sortuda do mundo!

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O “monstro” e a “justiceira”


(originalmente publicado no blog Excluídos Urbanos - http://exurbanos.blogspot.com.br/)

Já faz tempo, ainda mais pra nossa memória curta e ocupada com um excesso de informações tão avassalador que é inassimilável. Mas a história de um menino inteiramente desprovido de tudo, massacrado por uma “repórter” num desses programas sensacionalistas baratos não me passou batida, como também não passou a tanta gente que comentou na época, nas redes sociais que tornaram visível esse rapaz invisível. (Só não escrevi antes porque toda a minha capacidade de escrita estava sendo ocupada pela minha dissertação de mestrado).
Pra quem não acompanhou na época, trata-se de uma suposta jornalista que se arvora a justiceira, condenando, ironizando e humilhando um rapaz detido por roubo e suspeito de estupro (http://www.youtube.com/watch?v=F6VCbJHtzdc). A cena dantesca traz vários questionamentos: sobre esse tipo de programa, que fere às finalidades educativas e culturais da concessão pública televisiva; sobre o papel da mídia na nossa cultura da desigualdade e da criminalização da pobreza; sobre a questão ética da suposta repórter; ou a interrogação quanto ao acesso que esses programas têm às delegacias e aos detidos. Mas o que é interessante é que esse rapaz, ao ser cruelmente desprezado pela entrevistadora, paradoxalmente sai de sua invisibilidade e vira tema de discussão nas redes sociais. O garoto, negro, algemado, desdentado e com um hematoma no rosto, vira centro das atenções, provavelmente pela primeira vez na vida, sob luz, câmera e um microfone perverso, a partir da ira da loira defensora dos bons costumes e do bom português.
Não são nada grandes as chances de cruzar a fronteira da exclusão. Paulo Sérgio, que nunca teve pão, curiosamente conseguiu deixar o anonimato, virando circo, a partir de seu crime. E foi assim, por acaso, que entrou no enquadre da Justiça, da qual tanto os miseráveis quanto os abastados são exceção. Ele agora tem a seu favor um processo de danos morais, além da possibilidade de responder ao seu delito dentro dos trâmites legais, em vez de ser mais um invisível esquecido no sistema prisional. Paulo Sérgio, que é analfabeto, tem seis irmãos e vive nas ruas desde criança, era um fora-da-lei, pois sem direitos e sem deveres. Era um marginal não só no sentido de quem comete um crime, mas de quem vive à margem, fora da Lei, porque fora do pacto social, daquilo que é compartilhado.
O excluído é invisível. Olha-se pro lado oposto, evitando-se a pobreza, pra não se entrar em contato com algo do horror, do estranho, do outro, que, defensivamente, deve ser negado. O estranho, o bárbaro, vira inimigo, que deve e merece ser açoitado em horário nobre. O marginal é a causa da tão temida violência que precisa ser fortemente combatida, evitando-se a invasão do de fora da margem com muros, grades, controles de segurança!
Pois infelizmente parece que é justamente só através da violência que esses invisíveis ganham algum olhar, nem que seja este do temor e do horror. Ser marginal, agora como aquele que rouba ou fere os bons costumes, é uma solução identitária para quem nunca foi visto, é uma resposta à falta de pertencimento, ou justamente um reflexo deste lugar, ou não-lugar social, à margem, que tantos meninos como Paulo Sérgio ocupam.
A possibilidade de reconhecimento é condição fundamental para uma existência que reduza a miséria, não só a social, mas a miséria da alma, que é algo comum a todos nós, que nascemos desamparados. Tomara que Paulo Sérgio possa se manter reconhecido e, a partir disso, possa começar a contar sua própria historia, deixando de ser para nós apenas um representante de tantos excluídos.
Quando olho sou visto, logo existo.
Agora tenho como olhar e ver.
Agora olho com criatividade (…).
(Winnicott, 1994, p. 157)

referências:
Bastos, L.A. “ Caminho para as Índias: trauma, compulsão e repetição.” XXII Congresso Brasileiro de Psicanálise. 29 avril - 2 mai 2009. Rio de Janeiro, 2009.
__________. “Exclusão social: aspectos traumáticos da violência contemporânea.” Revista Brasileira de Psicanálise, 2006: 57-60.
REIS, E. “Doces e amargos bárbaros.” Polêmica, abril 2012, Disponível em: http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/polemica/article/view/2985/2132.
Viñar, M. “Qué puede decir un psicoanalista sobre exclusión social?” Rio, que cidade é essa? . Rio de Janeiro: SBPRJ, 26 octobre 2007.
Winnicott, D.W. A comunicação entre o bebê e a mãe e entre a mãe e o bebê: convergências e divergências”. Os bebês e suas mães. São Paulo: Martins Fontes, 1994.